O conflito entre o ingênuo e o realismo fantástico na obra de Franklin Cascaes
- uma primeira visão -

Muitas pessoas já devem ter ouvido falar da obra do artista e folclorista Franklin Cascaes, pessoa que possui uma posição fundamental nas artes plásticas catarinenses, e que desenvolveu uma obra muito valorizada tanto pelo seu caráter estético em si como pela sua característica de estar profundamente impregnada de elementos que retratam a cultura da Ilha de Santa Catarina.

A trajetória e o interesse do artista em retratar a cultura do ilhéu começa por volta de 1946, ano no qual se cria um sentimento geral de valorização da cultura litorânea catarinense. Imbuído deste sentimento o artista dá início a uma vasta obra artística que tinha como função principal o registro dos hábitos, dos medos e dos costumes do povo ilhéu, tormando-os visíveis à população produtora daquele saber.

De forma didática, o artista fazia uso da arte como seu principal método de trabalho, infiltrava-se entre a população com, a naturalidade de nativo que era, preocupando-se em anotar e observar tudo com a seriedade de um antropólogo para, posteriormente, em sua oficina, transformar todas estas informações em arte.

Franklin Cascaes entrega seu espírito, sua percepção artística, na busca de soluções plásticas ideais que interajam diretamente com o meio social, registrando tanta os elementos visíveis do dia-a-dia como a condição invisível do mito. Foi o primeiro estudioso a tratar formalmente saberes que, até então, eram apenas narrados pelos mais velhos em conversas restritas, pertencendo apenas ao domínio da tradição oral. Ao retratá-los, o artista dá forma plástica ao imaginário fantástico das colônias pesqueiras da Ilha de Santa Catarina transformando-se no agente criador da imagem simbólica da bruxa.

Procissão para a pesca da baleia.

Franklin Cascaes concebeu a imagem plástica da bruxa levando em consideração toda sua bagagem histórica, sua própria condição de sujeito desta cultura, criando em si um espírito messiânico, retratando a sociedade de forma a buscar em si mesmo, a maneira ideal do retrato desta. O artista promove, através de sua visão, o movimento das comunidades no tempo em busca de uma dinâmica ideal.

Assim temos que entender a obra do artista como um documento, um registro profundo para o estudo e o entendimento da cultura dos mitos, da sua relação e influência sobre o cotidiano das comunidades pesqueiras da Ilha de Santa Catarina.

Para entrar na questão do conflito entre o ingênuo e o realismo fantástico na obra de Franklin Cascaes, faremos algumas considerações sobre as diferentes soluções plásticas adotadas pelo artista, ao desenhar os vários elementos culturais que compunham o cotidiano das comunidades.

Ao iniciar seu trabalho de registro cultural, Franklin Cascaes criou com a prática de seus desenhos, dois espaços de representação distintos. A primeira representação se referia à realidade visível do dia-a-dia (a família, as festas, o trabalho, a religiosidade, as brincadeiras, etc.), na qual o artista desenvolve uma solução plástica, que se aproxima do ingênuo. A segunda representação se refere ao mundo invisível, que caracteriza o mito. Para retratá-lo, Franklin Cascaes desenvolve traços mais apaixonados, velozes e vibrantes, que buscam no realismo fantástico a solução final.

A representação ingênua, ou melhor, aquela que não pretende representar o fantástico, caracteriza-se pela vontade em dar harmonia, calma e moral ao ambiente representado, sugerindo uma espécie de utopia apologética, na qual todos os homens reunidos pela crença religiosa convivem em uma sociedade ideal de forma pacífica e homogênea, movidos pelo companheirismo e pelas relações sociais de ajuda mútua. Estas características citadas acima podem ser observadas no desenho "Procissão para a pesca da baleia", no qual o artista representa elementos da religiosidade local.

A representação fantástica materializa uma tipo de representação bem diferente da anterior. Ela tem a intenção de dar forma plástica à crença mitológica local na figura "maligna" e anti-cristã da bruxa, que segundo a representação, é responsável pela quebra das normas e da moral propostas pela representação plástica anterior. Para retratar o fantástico, como podemos perceber no de senho intitulado "Viagem bruxólica à Índia", o artista busca a inspirarão necessária em elementos marinhos (ossos de peixes, garras, escamas.), com os quais elabora plasticamente os seres fantásticos, valorizando-os e criando uma aura individual para cada criatura. Além disso o artista procura dar velocidade à representação, caracterizando-a com elementos nervosos que incorporam o dionisíaco das formas pontudas, velozes e grotescas. Propõe aí desequilíbrio que quebra com a ordem proposta pela representação ingênua.

Viagem bruxólica à Índia.

O interessante é que, em muitos desenhos do artista Franklin Cascaes, as duas representações se cruzam em um mesmo plano, revelando a intenção do artista em criar paralelos espaciais de ligação. Esta característica pode ser observada claramente no desenho intitulado "Bruxas dão nó na crina e no rabo do cavalo", no qual a bruxa com toda a sua velocidade sobrevoa a pacata vila provocando o terror.

A opção por parte do artista em criar soluções plásticas diferenciadas e ao mesmo tempo cruzá-las em planos comuns revelam, além da singularidade dos motivos, a evidenciação de uma ligação muito estreita entre a realidade social e as crenças mito1ógicas. Baseado neste aspecto cremos que o imaginário fantástico exerça uma profunda influencia sobre o fazer social, forjando diretamente a própria concepção de realidade na cultura retratada.

Para esta interpretação nos inspiramos nas idéias formuladas por Friedrich Nietzsche em seu livro "A Origem da Tragédia", no qual ele contrapõe Ápolo e Dionísio. Indicando a duplicidade da arte, que no caso é entendida como a "bela aparência" e seu reverso, "o terror da força do subjetivo" e que estes dois impulsos caminham lado a lado contribuindo fundamentalmente para o "desenvolvimento da arte" e do próprio conhecimento histórico.

Franklin Cascaes, ao retratar os diversos aspectos que compõem a cultura da Ilha de Santa Catarina confronta-se com duas questões fundamentais que regem o comportamento histórico dos homens: a confiança nos sentidos, calcados na realidade aparente, mesclada à desconfiança, ou talvez a intuição, de que por detrás desta realidade exista uma outra, completamente diversa e aterrorizante.

O artista, por um lado, constrói uma representação profundamente cristã exaltadora da moralidade, confrontada, por outro lado, com uma representação completamente amoral e que remete a crenças e hábitos pagãos, resultantes da própria natureza animal do homem. Os sentimentos conflituosos na obra do artista edificam planos paralelos que se ligam profundamente na construção da realidade, tanto na sua esfera pessoal-subjetiva, como na própria cultura retratada.

Um conflito entre universos paralelos, um confronto direto entre opostos: moral x amoralidade, Ápolo x Dionísiio, céu x inferno. A crença dualista de que todos os elementos da natureza possuem dois lados diferentes e que o peso de cada um equilibra o conjunto.

Bruxas dão nó na crina e no rabo do cavalo.

O mar serve como um bom exemplo dessa dicotomia. Sabemos que uma comunidade pesqueira extrai do mar o seu sustento, ou seja, a vida, mas segundo os desenhos de Franklin Cascaes é o mar que inspira o retrato da bruxa, é nele que ela se esconde para aterrorizar e quebrar o equilíbrio da comunidade. O mar trás o alimento e também o terror. Mito e cotidiano se confundem nos desenhos de Franklin Cascaes, e por que não afirmar que mito e cotidiano se confundem na vida das comunidades?

Evandro André de Souza

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